02/08/2011

Dicas para você se tornar um narrador esportivo

Quer despertar nos brasileiros a alegria e a emoção que só o esporte proporciona? Veja as dicas de Cléber Machado, Sílvio Luiz e outros narradores.

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Crie um suspense

Informe-se. Capriche nas estatísticas, estude as consequências do jogo e use os números para fazer daquele evento o mais interessante da história. O clima, por exemplo, é um bom recurso, muito usado para dar emoção às corridas de Fórmula 1.

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Valorize

Interprete qualquer lance como uma obra-prima de gênios do esporte. Se o jogo for chato, use o que der, nem que seja o esforço do pior atleta. O jogo pode ficar chato – a transmissão não.

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Tire sarro

Uma partida bisonha não significa necessariamente uma partida desinteressante. Aproveite para tirar sarro dos lances. É um jeito de mostrar ao telespectador que o jogo tem lá sua graça e merece a atenção dele.

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Crie um drama

Faça como os diretores de cinema – coloque o foco em um personagem. Escolha um dos atletas e conte uma história dramática sobre a família ou a trajetória dele no esporte. Também vale transformar a equipe em personagem.

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Solte frases de efeito

Acima de tudo, o trabalho de um narrador é evitar que o torcedor cochile no sofá. Pra isso existem as frases de efeito. Além de criar uma assinatura para você, ela ajuda a despertar o torcedor e a aumentar o clima de euforia.

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Desvie o foco

Se o jogo está ruim de doer, a saída é tirar a atenção dele. Fale sobre torcedores curiosos, crie enquetes pra eleger o pior em campo ou chame alguém pra discutir um lance duvidoso – qualquer coisa para sobreviver ao jogo sem perder a audiência.

Você já viu as dicas básicas, agora veja as dicas dos profissionais:

Cléber Machado (TV Globo)

“Se o jogo está quente, está quente. Se está morno, está morno. Não dá para mentir para o torcedor. Se você disser que o jogo está pegando fogo, o telespectador vai desacreditar na hora. Eventualmente, você pode chamar a atenção do público de casa para um torcedor mais folclórico nas arquibancadas. Sempre aparece algum. Mas também não pode esquecer do jogo e focar só naquele personagem. O torcedor é um detalhe. Não é o foco principal da transmissão. Você também pode, de vez em quando, contar uma historinha qualquer de bastidor, desde que ela esteja relacionada, de alguma forma, à partida que está sendo televisionada. Se não, você cai no erro de falar de um assunto e o torcedor em casa, coitado, assistir outro na TV. Não tem truque. De repente, você se aproveita de um lance isolado para valorizar a transmissão. ‘Será que agora vai esquentar a partida?’ O torcedor de casa pode até se animar. Agora, se você cai na besteira de falar: ‘É, daí para pior…’. (risos) O sujeito desliga a TV e vai dormir!”.

Luciano do Valle (TV Bandeirantes)

“Você tem que arrumar assunto para prender a atenção de quem está em casa. Você não pode é desinteressá-lo mais ainda. Uma tática que costuma dar certo é usar os números a seu favor. Experimente fazer uma retrospectiva da partida. Quantas vezes os dois clubes já se enfrentaram? Quem ganhou mais? Qual foi a maior goleada? E assim por diante. Mas tudo relacionado à partida. Quem não está jogado por causa de contusão? Ou, então, quem está voltando de suspensão por cartão amarelo? De informação em informação, você vai preenchendo os buracos da transmissão esportiva. Para falar a verdade, não existe transmissão fácil. Transmitir um jogo de vôlei, por exemplo, não é mais fácil do que um de futebol. Já imaginou quando o Brasil abre uma vantagem muito grande sobre a República Dominicana, por exemplo? Não há quem aguente… Dependendo da partida, é um porre de transmitir. E é um porre de assistir também. Para ser locutor esportivo, tem que nascer locutor esportivo. Eis uma profissão que ninguém ensina. Eu já narrava jogo de futebol de botão aos cinco anos de idade”.

Oliveira Andrade (TV Record e Rádio Jovem Pan/SP)

“Qualquer modalidade esportiva fica difícil de narrar se o profissional desconhecer as regras do jogo, se ele não tiver um mínimo de conhecimento técnico da coisa. Já aconteceu comigo, por exemplo, de ser convocado para narrar uma determinada competição esportiva sem tempo suficiente para me preparar. Corrida de Fórmula 1, por exemplo. Acho dificílimo. Se o narrador não entender do riscado, só vai ficar dando classificação, número de voltas, etc. E aí, ninguém agüenta… Quando o jogo está morno – e isso serve para outras modalidades também – o segredo é não deixar passar isso para o telespectador. Aí, é um convite para ele mudar de canal. É preciso estar munido do máximo de informações possível para quando o ritmo do jogo estiver morno. Cursos de locução não formam ninguém, apenas moldam. É preciso desenvolver um estilo próprio e fugir da mesmice que tomou conta das transmissões esportivas. São sempre os mesmos “chavões” e “bordões” que você ouve por aí. É preciso estudar e estudar bastante. A faculdade de jornalismo não basta”.

Silvio Luiz

“Quando o jogo estiver chato ou maçante, é preciso desviar a atenção do telespectador para outro assunto. Nestas horas, procuro fazer alguma pergunta inusitada ao comentarista, dar alguma informação que não tem nada a ver com o jogo ou, então, pedir ao diretor de TV que procure alguma figura engraçada na arquibancada para eu poder fazer alguma graça com ela. É preciso ter uma boa voz para se tornar um bom locutor esportivo. E, principalmente, não gritar no ouvido do telespectador. Tem gente por aí que anda berrando muito no ouvido da gente. É importante também buscar o próprio estilo. Não tentem imitar ninguém. Tenham personalidade”.

Maurício Torres (TV Record)

”Quando um jogo está desinteressante, é importante bater bola com o comentarista. Se um determinado clube abriu 20 pontos de vantagem no basquete, por exemplo, o recomendável é destacar os principais elementos dramáticos da partida. Os principais jogadores estão pendurados? Ok, o que você faria no lugar do treinador? Pouparia os jogadores e mandaria eles para o banco? Manteria os jogadores em quadra e arriscaria estourar o limite de faltas? E quando um time de futebol perde por goleada? O que fazer no lugar do técnico? Manda o time todo para o ataque, reforça a defesa, mexe no meio-campo? Interatividade é fundamental. Não só com o comentarista, mas com o público também. É preciso entreter o público, sem encher linguiça. Hoje em dia, narrar um eventual jogo desinteressante ficou mais fácil porque você tem mais ferramentas à sua disposição. Você tem os demais gols da rodada para exibir a qualquer momento, uma quantidade enorme de câmeras para mostrar o mesmo lance por diversos ângulos e, de quebra, a computação gráfica para tirar dúvida sobre distância da barreira e velocidade da bola, entre outros aspectos. Na hora do aperto, você lança mão destes recursos para dinamizar a partida”.